Por que há menos mulheres do que homens na astronomia?

Título: Three years later: gender differences in the advisor’s impact on career choices in astronomy and astrophysics

Autores: Rachel Ivie, Susan White e Raymond Y. Chu

Instituição do primeiro autor: American Institute of Physics, EUA

Status: acesso aberto

Embora o número de mulheres na astronomia tenha aumentado ao longo do tempo, o campo permanece dominado por homens. Segundo o artigo de hoje, isso não é porque mulheres estão menos interessadas em astronomia. No ensino médio, mulheres e homens reportam interesses similares em física e astronomia. Contudo, a cada transição na carreira, a probabilidade de que uma mulher deixe o campo é maior do que a de que um homem o faça. Mulheres obtêm apenas cerca de 30% dos títulos de Bacharel em Astronomia, e essa porcentagem decai a cada estágio da carreira. O artigo de hoje apresenta os resultados de uma pesquisa longitudinal que acompanhou um grupo de estudantes de doutorado ao longo de vários anos, conforme eles avançavam em sua carreira. O objetivo do estudo foi encontrar as razões pelas quais as pessoas deixam o campo da astronomia, focando-se em particular em síndrome do impostor, orientação falha, ou conflitos devido à carreira de um cônjuge ou parceiro (o famoso “problema de dois corpos”). Os autores identificaram quais desses empecilhos tiveram um efeito significante na decisão de deixar o campo e, em particular, quais tiveram um efeito maior para as mulheres. Com essas informações, podemos trabalhar para impulsionar mudanças na comunidade astronômica, para que mulheres e outros grupos sub-representados não sintam necessidade de deixar o campo.

O Estudo Longitudinal de Estudantes de Pós-graduação em Astronomia (LSAGS, do título em inglês Longitudinal Study of Astronomy Graduate Students) foi composto por três questionários enviados ao mesmo grupo de participantes ao longo de um período de oito anos (em 2007, 2012 e 2015). O propósito foi coletar informações sobre as experiências dos participantes e buscar por diferenças estatisticamente significativas entre aqueles que continuaram no campo da astronomia, e aqueles que o deixaram. Os participantes eram todos estudantes de doutorado em 2007, e o mesmo grupo foi contatado para todos os questionários, independente de terem respondido ou não a um questionário anterior. 2056 participantes foram contatados; o primeiro questionário recebeu 1143 respostas válidas, o segundo 837, e o terceiro 814. 465 participantes responderam aos três questionários.

Os três fatores discutidos nos questionários foram síndrome do impostor, atitude do orientador e o “problema de dois corpos”.

Síndrome do impostor: é definida como o sentimento de que tudo que você conquistou não foi realmente mérito seu, mas um resultado de sorte ou erro de julgamento de outras pessoas. Em suma, é o sentimento de que você não merece realmente seu sucesso e que não pertence ao grupo em que está. (Se você está lidando com essa síndrome, este astroponto dá alguns conselhos!)

Orientação: a qualidade da orientação foi avaliada perguntando aos participantes se seus orientadores eram prestativos, encorajadores, abertos a discussões, e se eles lhes forneciam conselhos adequados. Os participantes também foram perguntados se possuíam outros mentores, e se o orientador lhes fornecia o devido apoio na busca de seus objetivos.

Problema de dois corpos: refere-se à dificuldade que casais encontram buscando duas carreiras (frequentemente duas carreiras acadêmicas) no mesmo lugar. Esse é um problema que afeta mulheres desproporcionalmente, em parte porque mulheres são mais propensas a ter parceiros que também estão na academia. De fato, o artigo cita um estudo cujo resultado indica que a principal razão pela qual mulheres rejeitaram uma posição acadêmica foi porque seus parceiros não encontraram um emprego no mesmo lugar.

O estudo LSAGS encontrou que mulheres são significativamente mais afetadas pela síndrome do impostor, tendem a ter relacionamentos piores com seus supervisores e têm uma probabilidade maior de realocarem-se devido à carreira do parceiro, ou de ter vivido longe do parceiro por motivos de estudo ou trabalho. O estudo também conclui que todos esses fatores contribuem para um distanciamento da astronomia.

Os principais indicadores de que um participante estava trabalhando fora do campo da astronomia no questionário final foram “encorajamento do orientador na busca por objetivos” (além de já estar trabalhando fora da academia durante o segundo questionário). Quanto ao segundo questionário, os principais indicadores de que o participante estava fora da academia foram “troca de orientador”, “não estar fazendo um pós-doc”, “mudança por causa de um cônjuge ou parceiro” e “opções de carreira limitadas por causa de outra pessoa”. Muitos desses fatores mostraram uma forte correlação com gênero. De fato, o único fator relevante que não mostrou correlação com o gênero foi se o participante já estava realizando ou já tinha feito um pós-doc.

O estudo LSAGS encontrou que muitos fatores que levam a um distanciamento da astronomia afetam desproporcionalmente as mulheres. Mulheres têm maior probabilidade de enfrentar um “problema de dois corpos”, de sofrer com síndrome do impostor e de não receber orientação suficiente. Em particular, o estudo encontrou que um bom orientador contribui significativamente para a continuidade no campo. Mesmo anos após terminarem seu doutorado, os participantes indicaram que a qualidade da orientação teve um papel significativo e direto na sua permanência no campo. Os resultados deste estudo indicam os passos que podemos tornar para melhorar o campo da astronomia. Orientadores deveriam ser treinados para fornecer suporte adequado a seus alunos, assim como incentivá-los a atingirem seus objetivos. Instituições devem continuar buscando soluções para o “problema de dois corpos”.

É importante ressaltar, contudo, que esse estudo avaliou apenas um componente da identidade dos estudantes e permitiu apenas uma escolha binária entre sexo masculino ou feminino, excluindo assim outras identidades de gênero. Este é um problema que já discutimos aqui no Astropontos. O estudo foi apenas um primeiro passo em reconhecer os fatores que levam a um distanciamento do campo da astronomia, fornecendo o resultado importante de que eles afetam preferencialmente um grupo sub-representado. Contudo, é importante ter em mente que todos esses fatores possivelmente afetam de maneira ainda mais forte pessoas com outras identidades de gênero, ou outros grupos sub-representados. Para entender completamente o que faz o campo da astronomia tendencioso, nós precisamos aprender com estudos como este, continuar buscando identificar os fatores que impedem que certas pessoas escolham seguir uma carreira na astronomia e, principalmente, buscar soluções efetivas.


Adaptado de Why are women leaving astronomy?, escrito por Nora Shipp.

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