Além da binaridade: a questão do gênero na Física

Título: Enriching gender in PER: A binary past and a complex future

Autores: Adrienne L. Traxler, Ximena C. Cid, Jennifer Blue, Ramón Barthelemy

Instituição do primeiro autor: Department of Physics, Wright State University, Dayton, OH 45435

Status: Aceito para o Phys. Rev. Special Topics [acesso aberto]

É provável que você já tenha lido um artigo sobre gênero e física: talvez você tenha ouvido falar sobre a disparidade salarial entre gêneros ou tenha lido sobre a diferença no número de homens e mulheres no campo. Estudos como esses podem nos dizer muito sobre as diferenças que homens e mulheres enfrentam na física – no entanto, esses modelos tendem a usar uma estrutura incompleta de gênero. As pesquisas nessa área tendem a examinar as diferenças de participação, desempenho e atitudes em relação à física entre homens e mulheres. No entanto, muitos desses estudos não questionam a binaridade de gênero (classificação do gênero em duas formas distintas: masculina ou feminino), que não inclui não-conformidade de gênero ou pessoas não-binárias* ou de*. O artigo de hoje analisa estudos anteriores sobre gênero em física e sugere uma estrutura de gênero mais inclusiva em estudos futuros.

Um quadro inquestionável?

Após revisar estudos sobre testes padronizados, os autores apontam que todos esses estudos possuem várias suposições que não são questionadas ou exploradas: eles não questionam se suas medidas seguem o  padrão mais apropriado; eles não valorizam a experiência individual e as identidades dos estudantes; eles não questionam o modelo binário de gênero. Essas três suposições são explicadas em mais detalhes abaixo.

O Padrão Apropriado:  Em vários relatórios sobre a diferença de desempenho em testes padronizados entre homens e mulheres, uma lacuna é frequentemente observada entre ambos. No entanto, esta lacuna é frequentemente explicada, implícita ou explicitamente, como uma deficiência no desempenho das mulheres. Muitos dos artigos revisados tendem a supor que seus métodos, que tendem a favorecer os homens, são padrão, o que significa que outros grupos são deficientes ou ausentes. Frequentemente, esses artigos discutirão soluções para as deficiências de mulheres nos testes, mas não discutirão a cultura da física como um fator que pode contribuir ou reforçar a diferença de gênero.

 A experiência individual e as identidades dos estudantes. Os estudos revisados também não valorizam muito a experiência individual e as identidades dos estudantes. Muitas vezes, as identidades de um aluno podem ter vários aspectos interligados: como gênero com raça e etnia, status socioeconômico e status LGBT. Ao levar em conta mais experiências individuais, os pesquisadores podem reconhecer a complexidade e muitas facetas das experiências em física. Os autores do artigo escrevem que os pesquisadores tendem a simplificar suas análises colocando as identidades dos alunos em categorias simples e discretas de gênero, raça e outras categorias. No entanto, esse processo geralmente oculta os detalhes e as complexidades dos dados. Quando outros aspectos da identidade dos alunos são considerados, as dimensões se multiplicam e podem revelar mais detalhes.

O modelo binário do gênero. Além disso, esses estudos não questionam a binaridade no gênero. Eles tendem a aceitar sem críticas sexo e gênero como categorias binárias (masculino ou feminino), quando a realidade é muito mais complicada. O gênero é um espectro baseado em uma gama de características relativas à masculinidade e à feminilidade, e esse espectro não funciona para todos. Essas características referem-se às estruturas sociais e culturais, bem como à identidade de gênero. Além disso, a identidade de gênero não é necessariamente fixas, podendo mudar ao longo do tempo. (Veja também: este link para uma discussão sobre uma experiência individual com gênero e este link para alguns termos relativos ao tópico)

Os vieses implícitos nessa estrutura de gênero tendem a excluir as pessoas que não se enquadram ao gênero binário e subestimam as experiências das mulheres. Para combater isso, os autores sugerem modelos de gênero que permitem uma maior amplitude e fluidez de identidades de gênero. Essa concepção de gênero é mais atualizada com outros campos e pode permitir uma investigação mais completa das complexidades da pesquisa na educação em física.

Uma nova abordagem

Depois de revisar esses estudos como descrito acima, os autores descobriram que sua estrutura geral, que geralmente é desarticulada, reforça o gênero como binário. Essa abordagem pode causar problemas, pois restringe as identidades dos alunos durante a pesquisa, coleta de dados e conclusões. Também ignora a intersecção de gênero com outros aspectos da identidade. Essas linhas estreitas de investigação não foram necessariamente escolhidas conscientemente, mas foram esculpidas por uma estrutura de gênero culturalmente incorporada.

Embora este modelo binário contenha implicações deficientes, os autores observam que é difícil abandonar um conceito tão incorporado. No entanto, os autores dão algumas sugestões para os pesquisadores em educação na física com relação a estrutura, metodologia e tratamento de assunto que são resumidos abaixo.

Estabeleça explicitamente a estrutura. Os estudos de pesquisa em física podem não ter explicitamente estabelecido uma estrutura para suas descobertas, mas estão de fato usando um padrão de gênero. Os autores observam que esses estudos falham ao assumir que todos indivíduos compartilham os mesmos fundamentos, para especificar questões de pesquisa e avaliar evidências. O padrão adotado nos estudos pode impedir os pesquisadores de compreender seu assunto. Portanto, ao estabelecer explicitamente uma estrutura, esses pesquisadores podem ser capazes de lidar com vieses com mais clareza.

Mude a perspectiva. O mesmo conjunto de dados pode gerar percepções muito diferentes, dependendo da lente usada para análise. Com isso em mente, os autores sugerem que o uso de diferentes estruturas pode fornecer mais informações sobre o papel do gênero na educação em física. Usar apenas um referencial teórico negligencia os aspectos interdisciplinares da pesquisa da educação em física.

Evite o “olhar fixo”. Concentrar-se apenas nas lacunas de desempenho entre os gêneros pode contribuir para modelos incompletos e posiciona implicitamente esses testes como imparciais. Isso também reduz a identidade dos alunos a categorias distintas e não se concentra na nuance de diferentes identidades. Estudos que exploram múltiplos aspectos da participação dos estudantes e o sucesso na física podem dar uma visão mais completa do que reduzir os alunos a binários opostos.

Faça mais trabalho qualitativo e quantitativo que ateste a complexidade da identidade. O trabalho qualitativo pode fornecer informações mais precisas sobre a complexidade da interseccionalidade e da experiência do aluno, o que pode levar a uma maior percepção. Estudos quantitativos também podem reconhecer a natureza dos diferentes aspectos da identidade, mas não devem reduzir as identidades dos estudantes.

Preste atenção às descobertas “do que funciona”. Para qualquer departamento que busca se tornar mais inclusivo, fatores como suporte do departamento à questão de gênero têm sido enfatizados. Essas áreas de interesse também podem fornecer aos pesquisadores um ponto de partida para futuras pesquisas, concentrando-se nas experiências de alunos bem-sucedidos que não pertencem necessariamente à população “padrão” e focam na interseccionalidade.

Em suma, o gênero não é binário e isso deve ser levado em consideração nos estudos de gênero na pesquisa em física. Estudos que reduzem essa complexidade de identidade, referentes a gênero e outros fatores, devem ser tratados com cautela.

Os autores esperam que esta série de exemplos forneça inspiração e alguns possíveis pontos de partida para os pesquisadores de educação em física que desejam melhorar os alicerces da questão de  gênero na física. Os autores sugerem alguns trabalhos, incluindo um artigo que evita a classificação de estudantes por formas binárias de gênero e outro que explora uma série de performances de gênero, como ponto de partida para pesquisadores interessados em explorar uma gama fluida de identidades de gênero na física. Ao manter uma gama de identidades de gênero em mente, é possível alcançar uma nova compreensão sobre o papel do gênero na educação em física.

*Não-conformidade de gênero:  A variância de gênero, ou não-conformidade de gênero, é a expressão de comportamento ou gênero por um indivíduo que não corresponde às normas do gênero com que ele é percebido pela sociedade.

Não-binário: Uma pessoa que não concorda com as distinções convencionais de gênero e que não se identifica com nenhum ou ambos deles, ou com uma combinação de gêneros masculino e feminino

Adaptado do original em inglês, Beyond the Binary: Gender in Physics Education, por Mara Zimmerman

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