Retratos do nosso planeta e um recado sobre o futuro

Final de ano é um momento que nos traz nostalgia e faz querer revisitar memórias do passado. No último astropontos do ano não vai ser diferente, nós vamos abrir o álbum de fotos cósmico e olhar para duas fotos que ficaram marcadas na história da humanidade.

Há 50 anos na noite de Natal de 1968, o homem orbitava a lua pela primeira vez. Essa foi a missão Apollo 8, a primeira a ser transmitida ao vivo do espaço, em que  televisões de todo o mundo mostravam a imagem da Terra em preto e branco. Entretanto, a imagem que ficou para a história só viria dias depois, quando os astronautas retornaram da missão.

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“Earthrise” (Nascer da Terra em português), imagem da Terra feita da superfície lunar durante a missão Apollo 8. Fonte: NASA

A foto, intitulada de “Earthrise” (Nascer da Terra, em português), foi feita por William Anders, um dos tripulantes da missão. Ela foi a primeira imagem que nos permitiu ver o nosso planeta em cores – em um azul radiante, flutuando na imensa escuridão do espaço, mostrando-se triunfante diante da superfície morta da Lua. Vimos nossa Terra como um pequeno oásis perdido no espaço.

Para os astronautas abordo na missão, também era difícil não se deixar hipnotizar pela visão da Terra enquanto tinham que trabalhar. Quando o comandante da Apollo 8, Frank Borman, retornou à Terra, ele falou do impacto do que tinha visto: “Ver a Terra como ela realmente é, pequena, azul e linda, flutuando em um silêncio eterno, é ver como somos todos passageiros da Terra, juntos na mesma viagem […]”. Uma mensagem que na época trouxe esperança em um ano tão difícil como o de 1968. O ano que ficou conhecido como “o ano que não terminou”, marcado pelo assassinato de Martin Luther King, a guerra do Vietnã, e no Brasil, pela instituição do AI-5 (aquele mesmo que institucionalizou da tortura).

Anos depois, em 1990, Carl Sagan propôs a ideia de tirar uma foto da Terra vista a 6.4 bilhões de quilômetros com a Voyager 1 – missão que fez 41 anos este ano e se encontra atualmente no espaço interestelar (fora do sistema solar!). A imagem que ficou conhecida como “Pale Blue Dot” (Pálido Ponto Azul, em português) nos mostrou nosso lugar no cosmos: somos insignificantes diante da vastidão do universo. Sagan mostrou que apesar do nosso planeta ser apenas um pequeno ponto perdido no espaço, este é o único lugar em que sabemos haver vida. Com isso, ele falou da importância de preservarmos a vida que aqui existe, pois o Pálido Ponto Azul é a única casa que conhecemos e que podemos morar (até então).

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“Pale Blue Dot” (Pálido Ponto Azul), imagem feita pela Voyager 1 (a pedido de Carl Sagan), mostra a Terra vista a 6,4 bilhões de quilômetros como um pequeno ponto perdido na vastidão do espaço.

Essas duas imagens nos deram, há 50 e há 30 anos, a importante lição de cuidar do nosso planeta. Nós não somos os únicos passageiros da Terra, compartilhamos a mesma viagem com várias outras formas de vida: outros mamíferos,  plantas, aves, répteis, anfíbios, insetos, fungos, bactérias, também são passageiros da Terra. Juntos formamos um ecossistema, e por isso devemos zelar por essa família tão diversa do qual fazemos parte. Entretanto, esta é uma lição que não tem sido levada a sério pela maioria dos moradores humanos do Pálido Ponto Azul.

Ouvimos falar com mais frequência sobre os problemas causados pelas mudanças climáticas. Nossa produção de energia continua fortemente baseada em combustíveis fósseis que liberam gases estufa como o CO2 na atmosfera. Nossa alimentação, principalmente baseada em animais, causa impactos na terra e nos oceanos. Florestas são devastadas para dar espaço para monocultura – um dos principais é a soja, que serve para alimentar animais da pecuária. A monocultura empobrece o solo, reduz a fauna local e aumenta o número de pragas, tornando necessário a utilização de mais agrotóxicos (que por sua vez, prejudica o solo, põe em risco outras espécies e a nossa saúde). Sem se falar da maneira (antiética) como muito desses animais são tratados nas indústrias – muitos crescem sem nem ver o Sol. Nos oceanos, a pesca com o uso de redes captura – além da espécie de interesse – diversos outros animais que são descartados, prejudicando a biodiversidade e os ecossistemas do oceano. Estima-se que só na década de 1990, em torno de 17,9 a 39,5 bilhões de animais de diversas espécies foram capturados “acidentalmente” e descartados. Cientistas alertam que já estamos vivendo uma sexta extinção. Ao contrário das outras 5 megaextinções que foram causadas por catástrofes naturais, esta está sendo causada por nós mesmos e de forma acelerada. Como fala Elizabeth Kolbert, em seu livro de mesmo nome (“A sexta extinção”, prêmio Pulitzer de 2015):

“Agora mesmo estamos decidindo, quase sem querer, quais caminhos evolutivos permanecerão abertos e quais serão fechados para sempre. Nenhuma outra criatura jamais havia feito isso, e será, infelizmente, nosso legado mais duradouro”.

Toda a vida aqui existente, inclusive a da nossa própria espécie está fadada a um destino ameaçador, se continuarmos tratando a nossa interferência no planeta como um problema para o futuro. A lista de problemas e consequências é tão grande, que eu me pergunto: como podemos ignorar o que está acontecendo? Um aumento de 1 ou 2 graus Celsius na temperatura pode ter efeitos catastróficos, e nós já conseguimos aumentar em aproximadamente 1 grau Celsius a temperatura desde o final do século 19.

Na celebração de 50 anos de aniversário da missão Apollo, o astronauta William Anders, autor do “Nascer da Terra”, falou: “Para mim foi estranho que nós trabalhamos e fizemos todo um longo caminho para estudar a Lua, e o que nós realmente descobrimos foi a Terra”. Ao reabrir o álbum de fotos cósmico hoje, essas duas imagens nos fazem um apelo para redescobrir o nosso planeta – antes tarde do que nunca. Talvez o azul radiante que vemos hoje nas fotos não será mais o mesmo daqui a alguns anos, e o pior: por nossa culpa.

 

Inspirado pelo texto We are all riders on the same planet, New York times, Dezembro 24/2018.

Imagem destacada: Fonte

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