Um retrato da comunidade física no Brasil

Título: Brazilian physicists community diversity, equity and inclusion: a first diagnostic

Autores: Celia Anteneodo, Carolina Brito, Alan Alves-Brito, Simone Silva Alexandre, Beatriz Nattrodt D’Avila, Débora Peres Menezes

Instituição do primeiro autor: Departamento de Física, PUC-Rio, Brasil

Status: publicado no arXiv [acesso aberto]

Qual a aparência de um cientista? Em um experimento realizado no final dos anos 1960 e durante os anos 1970, os pesquisadores pediram a 5000 crianças que desenhassem um cientista. Menos de 1% das crianças desenhou uma mulher. Esses números vêm melhorando: em estudos a partir dos anos 1980, a proporção de desenhos representando mulheres cientistas cresceu para 30%, mas ainda existe uma preferência para representar um cientista como um homem branco.

Infelizmente, esse retrato parece coerente com a realidade no Brasil. No astropontos de hoje, apresentamos resultados de um artigo publicado por cientistas brasileiros que estudaram a composição da comunidade de físicos no Brasil por meio de um questionário aplicado a membros da Sociedade Brasileira de Física (SBF). O questionário de múltipla escolha recebeu 1695 respostas, a maioria (66%) de pessoas com doutorado, mas também participaram pessoas com mestrado (19%), licenciatura (7%), bacharelado (2%) e estudantes de graduação (6%). Com essa pesquisa, os autores buscavam responder a perguntas como: quão diversa é a comunidade de física, o que atrai as pessoas a seguir essa carreira e se assédio sexual e moral são um problema frequente.

Quão diversa é a comunidade de física?

A resposta curta é: muito pouco. A pesquisa indica que a comunidade é formada por homens (68%), brancos (61%), heterossexuais (88%) e da região sudeste (59%). Além disso, a diversidade diminui com a progressão na carreira: o percentual de mulheres e negros é maior entre os estudantes de graduação do que no nível de doutorado. Isso é ilustrado na Figura 1. Nota-se que a proporção de mulheres é maior que 50% durante a graduação, mas menos de 30% entre doutores. De forma similar, pessoas que se auto-declararam pretas ou pardas correspondem a cerca de 40% na graduação, mas apenas 20% entre doutores.

Figura 1: porcentagem de entrevistados de cada sexo (painel superior) e raça/etnia (painel inferior), em função do grau de formação atual.

Outro resultado encontrado é que existe pouca mobilidade na comunidade: grande parte dos respondentes permanece em seu estado de origem. Existe, contudo, uma grande migração para os estados de Rio de Janeiro e São Paulo. Minas Gerais e Bahia mostraram predominantemente uma tendência para emigração. Na região Sul, notou-se grande mobilidade entre os três estados. Já no nordeste, Pernambuco se destaca em atrair pesquisadores de outros estados da região.

O que atrai as pessoas a seguir essa carreira?

As três maiores motivações para seguir uma carreira em física foram facilidade com matemática na escola, afinidade com física na escola e desejo de participar no progresso da ciência. Aspectos socioeconômicos, como salário e reconhecimento social, raramente foram mencionados. Modelos na literatura e no cinema também parecem não ter contribuído – talvez pela ausência de modelos positivos.
Os pesquisadores também perguntaram quais as dificuldades encontradas ao seguir uma carreira em física. A principal causa citada foi a situação socioeconômica, com comentários citando por exemplo necessidade de trabalho, necessidades familiares e falhas na educação anterior. Além de questionar sobre a experiência pessoal, os autores também perguntaram aos participantes sobre dificuldades observadas nos colegas. Nesse caso, discriminação de diversas formas foi a causa mais mencionada: devido a sexo, gênero ou orientação sexual, raça ou etnia, classe social, origem geográfica e religião. O fato de que muitas pessoas afirmam observar discriminação, mas poucas relatam sofrê-la, reflete o fato de que são as minorias que são discriminadas.

Assédio sexual e moral são um problema frequente?

Assédio infelizmente parece ser comum na comunidade física. Como mostrado na Figura 2, 12% dos respondentes reportaram assédio sexual, e assombrosos 38% reportaram assédio moral. A porcentagem de respondentes que sofreu assédio sexual é muito mais alta entre mulheres (32%) do que entre homens (2%) e é relativamente homogênea entre diferentes raças e etnias. Para assédio moral, a porcentagem também é alta entre homens (31%), mas é extremamente alarmante entre mulheres (52%). Além disso, há uma maior incidência de assédio moral e sexual em populações que diferem do perfil de resposta majoritária em relação à identidade de gênero (maioria cisgênero) e orientação sexual (maioria heterossexual), ou seja, pessoas não-cisgênero e/ou não-heterossexuais sofrem mais assédio.

Figura 2: porcentagem de participantes que reportaram assédio moral ou sexual.

A pesquisa também encontrou que 12% dos físicos tem mais de um emprego – muitos como professores no ensino médio e na universidade. Outro resultado é que, entre professores universitários, apenas 29% são mulheres – por coincidência similar aos 30% de mulheres cientistas em desenhos de crianças mencionado no início deste astroponto. Outro aspecto importante é que apenas 44% dessas mulheres têm filhos, enquanto 65% dos homens relataram ter filhos. Essa diferença sugere que professoras ou pesquisadoras de instituições de ensino superior precisaram ou preferiram deixar de ter filhos mais do que os homens na mesma profissão.

Este estudo permitiu termos um claro retrato da comunidade física no Brasil. Os autores reconhecem que houve esforço nos últimos 15 anos para aumentar o número de grupos sub-representados na universidade – talvez refletidos na alta porcentagem de mulheres e negros na graduação (vide Figura 1). Contudo, fica claro que ainda há muito a fazer – especialmente para combater o assédio. Isso evidentemente não se aplica somente à comunidade física. Com os resultados apresentados neste estudo, a comunidade pode agora se tornar ciente do cenário atual e, com isso, tomar decisões que permitam melhorar a diversidade, equidade e inclusão na universidade.

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