Dicas para se internacionalizar como cientista

Após servir para o Astropontos desde a sua concepção, este será o meu último texto no blog. Nesta ocasião, eu gostaria de deixar um texto baseado em um pedido que várias pessoas me fazem: dicas de como obter experiências internacionais na carreira em ciência. Apesar de trabalhos no exterior serem bem vistos em currículos, eles certamente nos colocam fora da zona de conforto, e é preciso exercitar sabedoria nas suas escolhas para não ter experiências frustrantes.

Há vários motivos pelos quais estudantes de astronomia queiram buscar experiências internacionais: por exemplo, um estudo apontou que cientistas com mobilidade geralmente têm mais citações e redes de colaboração mais extensas. O processo de internacionalização pode começar desde a graduação e continuar até o pós-doutorado, dependendo dos recursos disponíveis para você e dos seus planos de carreira. Eu vou listar abaixo os pontos que acho mais importantes para tomada de decisão e sobre como planejar a sua experiência.

1. Procure recursos para financiar estágios no exterior

Se você está na graduação ou no mestrado, é possível que você comece desde já o seu processo de internacionalização. Em geral, as instituições acadêmicas do exterior não possuem fundos específicos para financiar estudantes visitantes (visiting students), então você precisa captar recursos no seu local de origem. Existem bolsas financiadas por instituições não-acadêmicas ou iniciativa privada por aí, mas é mais comum conseguir recursos através de uma agência financiadora. No caso do estado de São Paulo, no Brasil, estudantes com bolsa de pesquisa da FAPESP contam com a bolsa BEPE; outros estados ou países possivelmente possuem bolsas similares.

É importante ressaltar que esses programas geralmente exigem que você já seja proficiente em inglês ou a língua do local. Além disso, também pode haver um processo de candidatura com avaliação do seu currículo e do projeto, então esteja preparado para isso.

No caso dos Estados Unidos, as universidades têm exigências bastante restritas quanto à quantidade mínima de recursos financeiros que você deve ter para ser aceito como estudante visitante; e, para estudantes de graduação ou mestrado, a exigência pode ser maior do que os recursos disponíveis. Caso isso aconteça, vale a pena tentar captar recursos com o(a) orientador(a) da instituição no exterior para completar a quantidade de dinheiro necessária (por exemplo, para pagar os tuition fees).

2. Escolha uma instituição de destino e orientador(a) adequados(as)

Isso vale tanto para estágios quanto para programas completos (por exemplo, um doutorado realizado integralmente no exterior). Na verdade, isso vale para qualquer situação, e é algo que sempre faço questão de frisar quando converso sobre o assunto. Eu posso estar enganado, mas muitas situações frustrantes que eu vejo com colegas na academia são resultantes de decisões ruins sobre a escolha de instituição de destino e orientador(a).

Quando em face a essas escolhas, eu sugiro que você pense sobre três quesitos:

a) Relevância da instituição/orientador(a) no campo de pesquisa que você quer trabalhar: a primeira coisa que eu olho é o seu histórico de publicações, mas é preciso levar em conta se a instituição/orientador(a) é relativamente jovem na área.

b) Extensão da rede de colaboradores: atualmente ciência é feita em grandes grupos de pesquisa, e por isso quanto mais colaboradores você tiver acesso, melhor será a ciência que você faz. No entanto, quando envolvido em grandes grupos, também é preciso exercitar política (algo que não é muito divertido), então talvez seja necessário ter um pouco de equilíbrio. Leve em conta também o potencial de extensão da rede, porque ficar estagnado com as mesmas pessoas por anos não é muito produtivo.

c) A instituição e o potencial orientador(a) são acolhedores? Eu recomendo que você entre em contato com pessoas que trabalharam no local e com o orientador(a) no passado e pergunte sobre sua experiência. Fique atento às seguintes bandeiras vermelhas: overworking (trabalhar durante fim de semana ou feriados), orientadores difíceis de encontrar ou ausentes, estudantes com poucas ou nenhuma publicação durante o doutorado.

3. Faça candidaturas e prepare documentação com vários meses de antecedência

Caso você esteja interessado em se candidatar a posições de pós-graduação no exterior, um outro ponto importantíssimo é estar preparado com antecedência. Normalmente, posições em instituições renomadas abrem um ano antes do início do programa. Por exemplo, nos Estados Unidos, um programa de pós-graduação começa estritamente em setembro, e as candidaturas ficam abertas entre setembro e dezembro do ano anterior, normalmente. No caso da Europa, as instituições tendem a ser mais flexíveis e aceitam candidaturas em diferentes épocas do ano.

Faça os testes de língua e qualificação com ainda mais antecedência! No caso dos Estados Unidos, os testes TOEFL (proficiência em inglês) e GRE (espécie de ENEM para a pós-graduação) têm de ser feitos alguns meses antes que as candidaturas às posições fechem; é recomendável fazê-los por volta de julho ou agosto para ter os resultados por volta de outubro ou novembro.

Caso a sua instituição de origem não emita documentos em inglês, é possível que você tenha que fazer traduções dos seus históricos escolares e dos diplomas. Traduções notarizadas podem custar bastante caro, então esteja preparado. No entanto, algumas instituições de destino são mais flexíveis e aceitam traduções “não-oficiais” no processo de candidatura (no entanto, elas vão exigir traduções oficiais no processo de matrícula).

Na Europa, algumas instituições não exigem muita papelada durante a candidatura a uma posição, pelo menos nos primeiros passos do processo. Isso é comum quando um pesquisador é financiado por um fundo externo (por exemplo, com recursos vindos do European Research Council, ou ERC), e o potencial orientador está mais interessado no seu currículo e experiências anteriores do que suas notas na universidade.

Se você está na área de astronomia, um site legal para ficar de olho em posições de doutorado e pós-doutorado no exterior é o Job Register da Associação Astronômica Americana (apesar do nome, o site contém oportunidades no mundo todo).

4. Comunique e procure se destacar

Se você já conseguiu uma posição em uma instituição no exterior e está pronto para começar uma nova fase da sua vida acadêmica, comemore! Porque as coisas ficam mais complicadas depois disso: há o processo de adaptação à nova cultura e o novo local e você vai ter mais responsabilidades. Uma das coisas mais importantes para ter em mente durante a sua experiência é que você deve se esforçar para se destacar.

Não basta apenas aprender o básico de uma nova língua, é importante aprender a comunicar-se nessa língua, porque pesquisa que não é comunicada é equivalente a pesquisa não-realizada. Pratique dar palestras, vá a conferências, puxe assunto com aquela pessoa expert no seu campo de pesquisa, socialize com colegas e com pessoas locais.

Escrever também é comunicar: na verdade, uma das coisas que alguns de meus orientadores sempre comentam comigo é que saber escrever com eficiência e clareza é certamente uma das habilidades mais importantes de um jovem cientista. Você vai passar a maior parte do seu tempo escrevendo artigos, pedidos de recursos, cartas, emails e resumos, então diga tchau à preguiça de escrever. Se você está procurando oportunidades para praticar escrita, vale lembrar que o Astropontos está buscando colaboradores.

Para finalizar

Durante o processo de candidatura a posições internacionais, você vai certamente receber pelo menos um “não,” e a tendência é continuar recebendo “nãos” ao longo da sua carreira frequentemente (quando faz pedidos de tempo de observação em telescópios ou pedidos de recursos, por exemplo), então temos que aprender a lidar com respostas negativas, recuperar o fôlego e seguir em frente. Se você não está recebendo “nãos,” isso significa que você não está avançando seus limites!

Bom, eu poderia continuar escrevendo sobre o assunto ainda mais extensivamente, mas eu acho que consegui cobrir os pontos que acho mais importantes no processo de internacionalização como um cientista. No entanto, se você tiver perguntas, fique à vontade para escrever nos comentários: o time do Astropontos tem experiência para discutir sobre o assunto!

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