A vida acadêmica é difícil.

Título: Understanding Mental Health in the Research Environment

Autores: Susan Guthrie, Catherine Lichten, Janna van Belle, Sarah Ball, Anna Knack, Joanna Hofman

Instituição do primeiro autor: Corporação RAND

Status: este foi um estudo comissionado pela Royal Society e conduzido pela RAND Corporation [acesso aberto]

Há uma frase célebre de André Guidé que diz “Não se pode descobrir novas terras sem aceitar perder de vista a costa por um longo tempo”. Ela faz bastante sentido para quem trabalha com pesquisa.

Quando nossa pesquisa está indo bem, é maravilhoso. Trabalhar como astrônomo é um privilégio. É até difícil acreditar que alguém é pago para pensar sobre buracos negros colidindo muito longe de nós, ou sobre a expansão do Universo, e até sobre poeira no espaço. Descobrir algo novo é realmente emocionante. Algo que você imaginava ser possível, e que você agora pode explicar para outras pessoas. Algo que muitas vezes aconteceu muito longe no Universo, mais longe do que você jamais irá, e possivelmente antes mesmo de você ter nascido.

Mas fazer pesquisa científica pode ser bastante, bastante difícil. Exige que você perca de vista a costa, o conceito de uma resposta correta, e confie seu sustento aos ventos da academia. Isso leva muitos cientistas ao desespero. A maioria dos astrônomos, inclusive aqueles que você considera terem alcançado sucesso, provavelmente tem alguma história sobre as dificuldades de uma carreira como pesquisador.

O astroponto de hoje mostra uma análise mais qualitativa desse aspecto: o quão comum são problemas de saúde mental entre pesquisadores?

Este trabalho é incomum e árduo, e há razões reais para achá-lo difícil.

Os autores do artigo de hoje começam resumindo os aspectos de uma carreira em pesquisa. Podemos separá-los em alguns prós e contras:

Prós:

  • Alto nível de controle sobre o seu ambiente de trabalho e tarefas diárias;
  • Horário de trabalho flexível;
  • Trabalho estimulante e significativo.

Contras:

  • Alta proporção de pessoal em contratos de curta-escala, com oportunidades limitadas para progressão;
  • Cultura de horário de trabalho extenso, com muita pressão para resultados e significante potencial para conflito entre vida profissional e doméstica;
  • Necessidade de conciliar múltiplas responsabilidades: pesquisa, administração, ensino, extensão;
  • Grande variação entre estilos de liderança e supervisão;
  • Lideranças recebem pouco (ou nenhum) treinamento em gerenciamento de pessoas;
  • Envolvimento nas decisões organizacionais é normalmente baixo.

Essas não são, é claro, as únicas dificuldades que pesquisadores precisam superar. Na astronomia, em particular, houve casos recentes de assédio e bullying que levaram a escândalos na mídia, incluindo incidentes na Universidade de Berkeley e no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, que teve seu instituto de astronomia dissolvido depois de acusações de falha de conduta. No Brasil, o corte desenfreado no investimento em ciência e tecnologia assusta até ganhadores do prêmio Nobel (leia mais sobre os cortes e suas consequências neste astroponto). Esses casos particulares foram extremos o suficiente para figurarem nas notícias, mas casos de comportamento abusivo não são incomuns na acadêmia, onde a diferença de poder entre profissionais júnior e sênior é profundamente enraizada, e há maneiras óbvias e fáceis de retaliar quem reporta qualquer abuso, tornando difícil que vítimas busquem ajuda.

Além disso, cientistas que fazem parte de minorias também enfrentam problemas para progredir na carreira, recebem menos e são menos reconhecidos por seu trabalho. A maioria das pesquisas publicadas sobre esse tema é focada em desigualdades em razão do gênero, mas os problemas se estendem para identidade racial, orientação sexual, identidade de gênero, para citar outros exemplos.

Para completar, é difícil ganhar a vida como cientista. Financiamento e bolsas são difíceis de obter, especialmente no atual contexto de redução dos investimentos na área.

Tudo isso é para dizer que, se você é um cientista lidando com problemas de saúde mental, isso não é injustificado e irracional. Você não é um caso raro, como comprovam os autores do artigo de hoje.

Clinicamente infeliz

Os autores realizaram uma revisão de artigos sobre a saúde mental de pesquisadores, focando-se em estudos sobre doenças que podem ser diagnosticadas clinicamente. Eles encontraram que as taxas de doenças mentais são mais altas entre pesquisadores do que entre a população em geral. Além disso, as taxas são particularmente alarmantes entre cientistas júnior (estudantes de pós-graduação e pós-doutores). Considerando a média entre diversos estudos (veja a tabela abaixo), eles encontram que pelo menos 40% dos estudantes de pós-graduação sofrem com sintomas de saúde mental ao nível de doenças clínicas.

Figura 1: um resumo de estudos sobre a ocorrência de problemas de saúde mental entre estudantes de pós-graduação (PG) e pós-doutores (pós-doc). Com uma meta-análise, os autores concluem que mais de 40% dos pesquisadores júnior sofrem de problemas de saúde mental.

O que pode ser feito?

Os autores encontraram também que maior taxa de satisfação em uma carreira de pesquisa estava correlacionada com os seguintes aspectos:

  • Maior autonomia no trabalho;
  • Envolvimento no processo de tomada de decisão;
  • Encorajamento por parte de supervisores;
  • Oportunidades para desenvolvimento profissional.

A correlação mostrou-se particularmente forte para estudantes de doutorado, entre os quais os mais infelizes não se sentiam apoiados por seus orientadores, mas ainda assim obrigados a seguirem suas instruções, por não serem qualificados para dirigir seus próprios programas de pesquisa. O que pode então ser feito para ajudar e estimular jovens cientistas? A chave para a satisfação profissional parece ser desenvolver, desde cedo, um senso de controle e domínio sobre a sua carreira, desde decidir tarefas diárias até traçar um plano de carreira a longo prazo. Tradicionalmente, a academia torna isso bastante difícil. No início da carreira é quase sempre necessário passar por vários contratos de curto prazo, e sucesso em um deles não garante sucesso no próximo.

Os autores do artigo de hoje notam que algumas instituições começaram a tentar combater essa epidemia de enfermidades mentais entre jovens cientistas por meio de iniciativas que tratam os sintomas de doenças mentais (com, por exemplo, aulas de meditação). Iniciativas que atacam as causas desses problemas são mais raras, afinal são muito mais difíceis de implementar. Para tratar a insegurança quanto ao emprego entre os pós-docs, teríamos de implementar mudanças estruturais em como os pós-doutorados em si funcionam, por exemplo. Uma opção seria oferecer financiamento por prazos maiores, de forma que cientistas em início de carreira não precisassem encarar uma nova busca por emprego a cada um a três anos.

É pelo menos encorajador notar que a comunidade científica está, finalmente, começando a reconhecer e discutir esses problemas. Se você está infeliz na pós-graduação, saiba que não está sozinho, e isso não tem nada a ver com falta de capacidade da sua parte. Converse com seus colegas e superiores e não tenha medo de buscar ajuda. A costa está em algum lugar adiante, continue a nadar.


Este post foi adaptado do astrobite Research is Hard, por Emily Sandford.

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