Astrônomos e o aquecimento global: o que podemos fazer?

Título: The imperative to reduce carbon emissions in astronomy

Autores: Adam R. H. Stevens, Sabine Bellstedt, Pascal J. Elahi e Michael T. Murphy

Instituição do Primeiro Autor: International Centre for Radio Astronomy Research, The University of Western Australia, Crawley, Austrália

Status: White paper para o plano decadal para a astronomia australiana 2016-2025, disponível no arXiv.

A mudança no clima é hoje um dos tópicos de maior interesse da sociedade mundial. Sabemos que nas últimas décadas a temperatura média da Terra tem aumentado (veja Fig. 1, por exemplo), e que estimativas indicam um aumento de até mais de 4.5 °C até 2100 em relação aos anos pré-industralização. Esse cenário alarmante trouxe maior importância para o debate climático no mundo, culminando no Acordo de Paris, onde representantes comprometeram esforços em reduzir emissões de carbono e manter o aumento em “apenas” 2 °C. Mais de 11 mil cientistas de 153 países assinaram uma carta alarmando para a situação climática, em resposta à onda conspiratória de manipulação de dados por supostos motivos políticos. O aquecimento global é real.

Figura 1: Média de temperatura global por ano, em relação à média entre 1961 e 1990. Fonte: https://ourworldindata.org/co2-and-other-greenhouse-gas-emissions

Mas o que podemos fazer para mudar esta situação? Nada mais natural que os próprios cientistas sejam os primeiros a dar o exemplo. No post de hoje apresentamos um artigo dirigido à astrônomos, e como eles podem ajudar a reduzir a emissão de carbono. É importante frisar que este white paper é de um grupo de australianos dirigido para a comunidade astronômica australiana. Porém muitos dos problemas e soluções são equivalentes à astrônomos de outras regiões, como o Brasil. Apesar da Austrália contribuir mais para a emissão per capita do que o Brasil (16.9 contra 2.3 toneladas per capita), a emissão bruta dos dois países são equivalentes e, mais importante para a discussão aqui, tem um número comparável de astrônomos (apenas 50% a mais segundo censo da IAU de 2018; os EUA, por exemplo, tem mais de 250% a mais!).

Os autores estimam que a emissão total de atividades relacionadas à astrônomos na Austrália seja de mais de 15 kilo toneladas de CO₂ por ano. Aproximadamente 30% são originadas de viagens aéreas, 45% de alimentação de supercomputadores, 12% de tarefas cotidianas em universidades (luz de escritório, computadores, etc.) e 13% de operações em observatórios. Esses números são bastante incertos, e são considerados como limites inferiores pelos autores. A estimativa feita em observatórios, por exemplo, serve para apenas um deles em que se obteve dados, e essa contribuição pode ser comparável à emissão por supercomputadores se considerados todos os observatórios. A contribuição por astrônomo é estimada em ao menos 19 toneladas de CO₂ por ano, 12% maior que a média do país (lembrando que isso é apenas um limite inferior!).

A sugestão mais simples para redução da emissão de CO₂ é a redução em viagens aéreas. Apesar de muitas atividades de um astrônomo envolverem deslocamento, como conferências, observações e participações em comitês de avaliação, muito pode ser feito para reduzir isso, principalmente pesquisadores seniores, que são os que mais contribuem(veja Fig. 2 para uma comparação com estudantes e pós docs). Reuniões via internet, observações remotas e dar preferência a viagens de curta distância (de preferência em outros meios de transporte) são algumas soluções sugeridas pelos autores. Precisamos mesmo ir presencialmente até aquela conferência no outro lado do mundo?

Figura 2: Contribuição da emissão por viagens aéreas separada por estágios na carreira. As diferentes cores no histograma mostra a contribuição de cientistas seniores (professores), profissionais (como operadores de telescópios), pósdocs, alunos de doutorado e de mestrado. Abaixo são mostradas as faixas em que cada categoria concentra sua contibuição, com traços verticais mostrando a mediana e estrelas mostrando a média das distribuições. Figura 1 do artigo.

Sobre a utilização de supercomputadores, uma solução viável é a utilização de energias renováveis em sua alimentação, como a instalação de painéis solares em universidades. Dar preferência para equipamentos com maior eficiência energética também pode fazer diferença na redução da emissão de CO₂. Neste sentido o Brasil está na frente em relação à Australia: ~80% da matriz energética é de energia renovável, contra apenas ~20%.

Por fim os autores sugerem a criação de incentivos, como premiação para instituições que mais se dedicam ao tema da redução de emissões, assim como é feito em tema como diversidade racial e de gênero, como o Prêmio L’oréal-UNESCO para mulheres na ciência. No fim a mensagem final é criar a consciência de como podemos contribuir para cuidar do objeto astronômico mais importante para nós humanos: a Terra.

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