Sucesso na astronomia: qual a melhor estratégia?

Título: How long should an astronomical paper be to increase its impact?

Autores: Z. Stanek

Instituição do primeiro autor: Department of Astronomy, The Ohio State University, EUA

Status: divulgado no arXiv [acesso aberto]

O que você acha que é necessário para ter uma carreira de sucesso em astronomia? Algum talento nato? Trabalho duro? Criatividade? Habilidade de comunicação excepcionais?

Que tal escrever várias artigos curtos? Querendo ou não, o sucesso de um astrônomo ou astrônoma é frequentemente medido pela quantidade de artigos publicados e pelo quanto eles são citados. Artigos são um método crucial para comunicar seus resultados para a comunidade astronômica, e tanto a maneira com que eles são escritos quanto como são publicados pode ter um impacto no número de citações que eles recebem.

Existem várias maneiras simples de aumentar o número de citações em um artigo. Algumas são previsíveis: se você é famoso na comunidade (como um ganhador do prêmio Nobel), ou trabalhando em um assunto popular como exoplanetas ou cosmologia, você tende a ser citado com mais frequência. Outras fazem bastante sentido: artigos que são úteis para vários campos, como mapas de extinção, medidas de parâmetros cosmológicos e grandes projetos de mapeamento estão frequentemente entre os artigos mais citados em astronomia. Há também o astro-ph, um serviço de divulgação prévia à publicação que é bastante popular. Já foi mostrado que artigos que aparecem no astro-ph são citados duas vezes mais que aqueles que não e, além disso, aqueles que aparecem no topo da lista têm duas vezes mais chance de serem citados do que aqueles que aparecem mais abaixo.

Mas e o número de páginas? É melhor escrever vários artigos curtos, ou um único artigo longo? O autor do artigo de hoje buscou responder exatamente essa questão e analisou a extensão de artigos publicados entre 2000 e 2004, período durante o qual o número de páginas de um artigo podia ser verificado na base de dados ADS, e o artigo já tinha tido tempo suficiente para ter sido citado em 2008, ano em que o artigo de hoje foi escrito.

O autor pesquisou artigos escritos para as quatro principais revistas: Astronomy & Astrophysics (A&A), Astronomical Journal (AJ), Astrophysical Journal (ApJ) e Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS). Descartando artigos de apenas uma página (que são tipicamente erratas ou editoriais), a amostra final continha em torno de 30.000 artigos. O intervalo de número de páginas desses artigos é mostrado na Figura 1. Há um número significante de artigos de quatro páginas, as chamadas letters, que tem número máximo de quatro páginas e divulgam um resultado imediatamente relevante em algum campo. O número de páginas tem um pico em torno de seis, diminuindo para artigos mais longos.

Figura 1: número de páginas dos artigos na amostra estudada. A maioria dos artigos tem entre cinco e dez páginas; a mediana é nove. As diferentes cores denotam as diferentes revistas em que os artigos foram publicados.

O número de citações é mostrado na Figura 2. A mediana do número de citações por artigo foi 15; 10% dos artigos recebeu três ou menos, e apenas 1% recebeu 100 ou mais. Apenas 100 artigos tiveram 300 citações ou mais.

Figura 2: número de citações dos artigos da amostra estudada. A mediana foi em torno de 15. Novamente, as cores denotam as diferentes revistas.

Interpretando tudo isso: como você poderia esperar, artigos mais curtos (que supostamente têm menos conteúdo) tendem a ter menos citações. Na Figura 3, mostramos o número de citações por página. Artigos com 2-3 páginas tiveram uma mediana de seis citações, enquanto artigos com cerca de 50 páginas tiveram uma mediana de 50 citações. Provavelmente isso ocorre porque artigos mais longos têm mais conteúdo e portanto mais razões para serem citados. Há um pico para artigos de quatro páginas, provavelmente letters, que têm em média quatro citações por página. A mediana para toda a amostra, para comparação, é de apenas 1,5 citações por página.

Figura 3: número de citações em função do número de páginas. O número de citações aumenta com a extensão do artigo. Há um máximo local para artigos de quatro páginas (provavelmente letters). Pontos vermelhos representam a mediana para artigos dentro de um intervalo de páginas. O eixo-y representa citações+1 para evitar a divergência para artigos com zero citações, já que a escala é logarítmica.

E o que tiramos disso? Não há uma única interpretação possível, mas o autor aproveita a oportunidade para dar alguns conselhos profissionais bem-humorados. Para estudantes de pós-graduação, o número de artigos publicados como primeiro autor pode ter um papel importante na busca por um pós-doutorado ou por um primeiro emprego na academia. Isso implica que escrever muitos artigos, e publicá-los no astro-ph próximo ao horário final para submissões, para que estejam no topo da lista, é útil, independente da extensão do artigo. Para pesquisadores mais sênior, quando o número de citações por artigo se torna mais importante (para aumentar o índice-h), escrever artigos mais longos pode ser mais importante. Isso dito, não existe, é claro, uma fórmula mágica para escrever artigos de alto impacto. A Figura 3 mostra que há um alto espalhamento no número de citações por artigo para artigos de mesma extensão.

Há muitos caminhos para o sucesso na astronomia. Algumas estratégias podem ajudar a tornar seu trabalho reconhecido, e aumentar as chances de sucesso profissional no futuro. Mas, no fim do dia, o que importa é fazer algo que te faça feliz a ponto de sentir-se nas estrelas.

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