Astrônomos além da astronomia: utilizando sua formação fora da universidade

Vida acadêmica não é a única resposta!

Existe uma pergunta realmente assustadora, digna de roer-se as unhas, eriçar os cabelos da nuca e acelerar o coração, com a qual todos os estudantes de astronomia se deparam em algum momento de sua jornada:

O que vou fazer depois que me formar?!?

A resposta tradicional já está estabelecida:

  1. Fazer um mestrado e um doutorado;
  2. Atuar como pós-doc por alguns anos;
  3. Eventualmente conseguir emprego como professor em uma universidade.

Contudo, atualmente esse caminho tradicional é difícil – ou no mínimo leva muito tempo – para ser completado. A rota desde o início dos estudantos até professor contratado leva normalmente mais de uma década. Ao longo desses anos, você enfrenta a ansiedade, as limitações e a alta competitividade que resultam de um mercado de trabalho saturado como a academia.
De quão saturado estamos falando? Em 2005, a American Astronomical Society (AAS) publicou um guia extenso de carreiras em astronomia. Nesse guia, a AAS afirmava que, em um ano típico, eles anunciavam entre 200 e 300 empregos. Cerca de 150-200 desses eram vagas de pós-doutorado. Agora considere que, nesse mesmo ano típico, 240 doutores em astronomia se formam. É uma razão muito alta entre novos doutores e vagas de pós-doc! E a situação não melhorou muito com o tempo. (Quer saber mais sobre e o estado e as lutas no mercado de trabalho na academia? Algumas referências em inglês são dadas ao fim deste artigo.)

Se você realmente quer se tornar um astrônomo profissional, então, certamente, marche em frente e drible a competição com a cabeça erguida! Mas é importante que você saiba que o caminho tradicional não é o único que existe! Existem empregos fora da academia em que você pode favorecer-se de sua graduação, mestrado ou doutorado em astronomia. Neste artigo, vamos primeiro discutir algumas das habilidades que você pode aperfeiçoar durante sua jornada como estudante de astronomia e então falar um pouco sobre vários empregos fora da academia em que essas habilidades seriam bastante valorizadas.

As habilidades que uma formação em astronomia pode te dar

Então, que boas habilidades você pode obter estudando astronomia? Para responder essa pergunta, vamos analisar algumas atividades que você faz como estudante em astronomia, e então passar pelas habilidades amplamente aplicáveis que elas implicam:

Assistir a aulas:
Considere as disciplinas que você cursa, por exemplo. Muitas das disciplinas em astronomia, parecem concentrar-se mais profundamente em um dado assunto, como meio interestelar ou atmosferas estelares. Mas essas aulas são na verdade bastante interdisciplinares, de modo que se conectam com outros campos, como química e biologia. E disciplinas mais técnicas, como aquelas que exploram análise de dados, técnicas observacionais ou instrumentação, fornecem conhecimento em práticas gerais que são certamente valiosas fora da academia.

Você pode também explicitamente assistir a aulas em outros campos em que você esteja considerando trabalhar algum dia. Essas aulas, sejam em ciências da computação, matemática, estatística, escrita ou algo mais, podem estender sua formação e conjunto de habilidades.

Fazer e comunicar ciência:
O simples fato de que você faz pesquisa como estudante de astronomia resulta em abundantes habilidades no seu currículo. Como estudante de astronomia, você aprende a totalidade do processo científico, desde definir um problema de pesquisa, a testar sua hipótese, analisar seus dados, até chegar a conclusões significativas. Essa habilidade de não só identificar e entender um problema, mas também pensar e desenvolver maneiras para resolvê-lo, é extremamente útil também fora da academia.

Melhor ainda, como estudante você aprende a conversar com outras pessoas sobre a sua pesquisa de maneira clara e concisa. Você tende a escrever muito (relatórios, propostas, artigos…) e fazer muitas apresentações (seminários, palestras, defesas…) durante sua trajetória astronômica. Com prática, você pode aprender a livrar-se do jargão de sua pesquisa e moldar suas palavras de forma que elas atinjam a audiência que você tem em mente – seja a banca do seu trabalho de conclusão ou tese, ou um grupo de estudantes de ensino fundamental em um evento de extensão universitária. Em particular, extensão é uma forma maravilhosa – e recompensadora – de desenvolver essa habilidade. Como estudante, você pode buscar realizar essas atividades em escolas locais, planetários, aulas online, etc. e realmente praticar suas habilidades de comunicação em programas interativos direcionados a estudantes mais jovens. Afinal a habilidade de comunicar sua pesquisa de forma efetiva, independente da audiência, é inestimável!

Ser monitor de alguma disciplina:
Como monitor, você provavelmente irá realizar alguma combinação das seguintes atividades: plantão de dúvidas, liderar aulas de revisão, dar notas e mesmo aulas. Fazendo isso, você aprende uma habilidade muito importante: a de ensinar. Qualquer estudante que tenha sofrido por uma aula ruim sabe que ensinar é mais do que simplesmente escrever algumas coisas no quadro, mostrar uns slides de PowerPoint e dar listas de exercícios. Ensinar bem significa apresentar o material de uma forma que seja contagiante, desafiante e – talvez o mais importante – compreensível. Como estudante, você pode praticar essa habilidade crucial.

Essas são apenas algumas (definitivamente existem mais!) das tarefas que você desempenha enquanto estudante que podem ser desenvolvidas e colocadas em prática fora da academia.

Onde você pode colocar essas habilidades em prática

Certo! Falamos sobre as maravilhosas habilidades que você pode desenvolver como estudante em astronomia. Agora, onde você pode colocá-las em prática além da academia?

Resposta curta: em MUITOS lugares.

Vamos passar por alguns deles (tendo em mente que esta lista não é de forma alguma completa!)

Ciência da computação e análise de dados:
Como estudante de astronomia, você pode naturalmente tornar-se expert em uma linguagem de programação (ou várias!) e virar-se muito bem com terminais de computador. Depois de graduar-se, você pode utilizar suas habilidades de programação para outros fins. Empresas buscam programadores e desenvolvedores de software com vários níveis de conhecimento.

Você também pode usar os conhecimentos que junta fazendo estatística e análise de dados em astronomia e utilizá-los para analisar dados não-astronômicos para companhias. Companhias de finanças, negócios e o setor farmacêutico, por exemplo, contratam analistas de dados para estudar sua grande quantidade de dados e ajudá-los a encontrar tendências, padrões e anormalidades.

Mecânica:
Se você está mais interessado no lado “como funcionam as coisas” da astronomia, então você pode buscar um trabalho mais técnico. Por exemplo, observatórios e empresas de tecnologia buscam por pessoas com conhecimento em projetos de instrumentação e operação. Eles contratam tanto operadores quanto especialistas para lidar com telescópios e equipamento, para listar apenas alguns exemplos.

Extensão:
Se você gosta de comunicar ciência para várias audiências, então você pode trabalhar dedicando-se à extensão e comunicação com o público. Planetários e museus, por exemplo, contratam astrônomos com habilidades de comunicação para trabalhar como guias, planejadores e palestrantes. Esses cientistas servem como ligação entre o público geral e a comunidade profissional de astrônomos, e transportam seu amor por astronomia (e ciência em geral!) para todos que eles atingem, de estudantes a idosos.

Pesquisa:
Se você quer continuar fazendo pesquisa, você também pode fazer isso fora da academia. Instituições, laboratórios e observatórios apoiados pelo governo, por exemplo, também fazem pesquisa (no Brasil, temos o Laboratório Nacional de Astrofísica, por exemplo). Essas organizações normalmente têm interesses e objetivos específicos na sua pesquisa e contratam pesquisadores para ajudá-los a atingi-los.
Empresas e indústrias privadas contratam pesquisadores também. Companhias relacionas a pesquisa em aeronáutica e energia, por exemplo, empregam pesquisadores para mantê-los atualizados nas pesquisas mais recentes e inovadoras, para que possam manter-se na frente da competição.

Ensino:
Você não precisa ser professor universitário para ensinar! Se você gosta de ensinar sobre astronomia, ou ciência de forma geral, então você certamente pode fazê-lo em outros níveis. Algumas escolas, em especial particulares, contratam pessoas com formação e paixão pela ciência para ensinar disciplinas na área. Faculdades e outras instituições não focadas em pesquisa precisam de professores também e podem contratar astrônomos para isso.

Escrever:
Se você gosta de traduzir o jargão e os termos obscuros da astronomia para linguagem que o público geral possa entender, então considere tornar-se um escritor de ciência. De jornalismo científico a relatórios técnicas, há vários trabalhos que contratam cientistas para escrever sobre a ciência que amam fazer. E companhias que lidam com trabalhos educacionais, como aquelas que escrevem, editam e publicam textos didáticos, também buscam por cientistas para ajudá-los a decidir o que a próxima geração de astrônomos irá estudar e aprender.

De novo, lembramos que esta lista não é completa!

Ansioso pelo futuro

Como você pode ver, a ampla questão – o que vou fazer depois de estar formado – tem mais de uma resposta! Se astronomia profissional não é para você, então não se preocupe; está longe de ser o fim do mundo (ou universo). Apenas concentre-se em desenvolver essas habilidades valiosas durante seu tempo na universidade e você estará pronto para dominar o mercado de trabalho não-acadêmico!

Quer saber mais?

Abaixo listamos algumas referências em inglês que embasaram a discussão neste artigo:

  • post em um blog sobre o mercado de trabalho em astronomia;
  • artigo sobre a alta competitividade no mercado acadêmico;
  • astrobite sobre o estresse e sacrifícios a que muitas vezes se submetem os aspirantes a uma carreira em astronomia;
  • este e mais este artigos sobre o destino de doutores após receberem seu diploma;
  • descrição das habilidades e tarefas de um astrônomo;
  • notas sobre carreiras relacionadas à astronomia;
  • discussão sobre habilidades transferíveis desenvolvidas por astrônomos;
  • site (comentado neste astrobite) listando empregos para astrônomos fora da academia, com testemunhos;
  • texto da AAS comentando possibilidades de carreira para astrônomos, dentro e fora da academia.

Original em inglês: Astronomers Beyond Astronomy: Using Your Degree Outside of Academia, por Jamila Pegues

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