Entrevista com a Dra. Lia Medeiros

A Dra. Lia Medeiros faz pós-doutorado no Institute for Advanced Study (IAS). Seu interesse de pesquisa é em usar computação e teoria para entender melhor objetos compactos, como buracos negros. Ela faz parte da colaboração do Event Horizon Telescope (EHT), contribuindo para os esforços da colaboração para obter as primeiras imagens de buracos negros, como as imagens do M87 e Sgr A*. Originalmente do Brasil, Lia se mudou muito durante sua juventude, e desde muito nova gostou de aprender e estudar matemática porque era igual em todos os países: “Percebi que era um conhecimento que sempre seria transferido para onde quer que eu estivesse”.

No ensino médio, o interesse de Lia pela matemática cresceu ainda mais. “Me deu uma sensação de admiração que nós, como humanos, fomos capazes de usar essa ferramenta chamada matemática para fazer previsões sobre o universo em que vivemos. Ainda me surpreende o quão poderoso isso é”. Ao aprender sobre a relatividade especial no ensino médio, Lia aprendeu sobre dilatação do tempo e buracos negros, o que despertou seu interesse pela astrofísica e pelo uso da matemática para entender melhor esses objetos. Ela completou sua graduação na UC Berkeley, enquanto fazia estágios chamados REUs durante o verão para ganhar mais experiência em pesquisa.

Lia foi para UC Santa Barbara para seu doutorado, onde ela pretendia usar buracos negros astrofísicos para testar a física fundamental. No entanto, quando ela começou seu doutorado, ela enfrentou desafios para encontrar um orientador que compartilhasse seus interesses, aceitasse novos alunos e tivesse financiamento. “Quando comecei meu doutorado, o LIGO ainda não havia detectado ondas gravitacionais, e o EHT ainda não havia feito imagens de um buraco negro. Era difícil fazer parte de um campo que realmente não existia na época”. Uma semana, ela foi a um colóquio e se interessou por uma palestra da Prof. Feryal Ozel sobre sua pesquisa atual envolvendo buracos negros. Lia mencionou à professora que estava interessada em buracos negros, e a Professora Ozel perguntou se ela queria se juntar a ela na Universidade do Arizona e se tornar sua assistente de pesquisa. “Fiquei muito agradecida por ela poder aceitar uma aluna de uma universidade diferente. Eu ainda tenho meu doutorado na UCSB, mas passei a maior parte do meu tempo na Universidade do Arizona trabalhando com a colaboração do EHT”.

Figura 1. Lia Medeiros no IAS. Crédito: Dan Komoda, IAS.

Trabalho Atual com o EHT

Lia iniciou seu pós-doutorado na IAS em junho de 2019, cerca de dois meses depois que o EHT publicou sua primeira imagem de buraco negro. A maior parte do trabalho de pós-doutorado de Lia foi no Paper 6 das publicações do EHT sobre o buraco negro Sgr A*, que visavam medir o tamanho do anel de emissão nas imagens do EHT e usar esta medida para testar se Sgr A* é um buraco negro de Kerr (um buraco negro em rotação). “Kerr é uma geometria muito específica. Se a teoria da Relatividade Geral estiver correta, e se algumas suposições motivadas fisicamente forem válidas, então os buracos negros no espaço devem ser Kerr.” Kerr prevê que existe um tamanho específico para este anel, e muito do trabalho de Lia tem sido em calibrar a medição do tamanho deste anel e garantir que todas as incertezas sejam levadas em consideração. “Se descobrirmos que os buracos negros astrofísicos não são Kerr, isso teria implicações importantes para a teoria da física de alta energia”. Ao compreender melhor a imagem de Sgr A*, é possível não apenas certificar-se de que ela é consistente com Kerr, mas também descartar ou impor restrições a outras alternativas teóricas.

O trabalho de Lia no EHT chamou a atenção do Senado Brasileiro, que a convidou para dar uma palestra sobre a primeira imagem do buraco negro em 2019: “foi uma experiência que nunca vou esquecer. Nunca imaginei que isso aconteceria”.

Figura 2. Lia no Senado Brasileiro falando da primeira foto do buraco negro obtida com o EHT.

Conselhos para Alunos

Quando perguntei à Lia se suas experiências afetaram de alguma forma suas decisões de carreira, Lia menciona que, embora não haja nenhum evento específico que a tenha feito se sentir indesejada na astronomia, vir do Brasil a deixou muito apaixonada por fazer divulgação para estudantes da América Latina. “Atualmente ensino astronomia para refugiados da América do Sul em uma escola. Fazer divulgação é uma parte crucial da minha carreira. Muitas vezes é um choque cultural se mudar para um país diferente enquanto cresce, e é difícil passar por isso quando criança. Espero que conhecendo alguém que passou pela mesma coisa eu possa ajudar essas crianças de alguma forma”.

Quando se trata de ser mulher na astronomia, Lia acha muito inspirador e motivador ver muitas mulheres que olham para o futuro: “Eu vejo isso em minhas colegas, em mulheres mais jovens e mais velhas que eu. Trabalhamos muito para tornar o campo mais inclusivo e para orientar e apoiar a próxima geração. Ainda temos algum trabalho a fazer, mas atualmente há um grande esforço para tornar as experiências da próxima geração de mulheres melhores do que as nossas”.

Lia aconselha que, para ter sucesso na astrofísica quando você está começando, não precisa ser um gênio. “Cria um distanciamento entre os alunos e o campo, de uma forma que não acho produtiva para nenhum deles. Fazer parecer que a ciência é um campo incrivelmente difícil e impossível exclui sistematicamente os alunos de minorias”. Ela acrescenta que é preciso estar disposto a trabalhar duro para perseverar. “Tive muitas coisas que não saíram como planejado. Minha trajetória profissional não era exatamente típica. Mas eu simplesmente não estava disposta a desistir”. Lia descreve a pesquisa como uma “série de fracassos”: você falha e continua, resolvendo um problema após o outro. Ela pede aos alunos que se lembrem de que fazer pesquisa é fazer algo que nunca foi feito antes, então problemas que você não previu podem acontecer. “Lembre-se, é importante ser gentil consigo mesmo”.

Edição: Mark Popinchalk

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