Uma Celebração da Ciência

No sábado passado, 22 de abril, foi mais um Dia da Terra. Nesse dia, anualmente, costumam ocorrer eventos de conscientização ambiental. No último sábado não foi diferente. Ou talvez tenha sido, consideradas as proporções. Como você pode ou não ter visto nas notícias, cientistas e entusiastas por todo mundo decidiram sair em uma Marcha pela Ciência, lotando as ruas em muitos lugares.

Figura 1: marchas-satélite ao redor do mundo, como mostrado na página oficial em 22 de abril. Se você está pensando que ninguém marchou na Antártica, pense de novo.

A ideia para tal marcha surgiu no Estados Unidos, em Washington, DC (você deve imaginar o porquê), mas rapidamente se espalhou pelo mundo em 610 marchas-satélite, como ficaram conhecidos os eventos parelelos (veja na Fig. 1). Muitos transeuntes ficaram surpresos em ver todas aquelas pessoas protestando com cartazes curiosos, algumas vezes usando jalecos decorados ou outros equipamentos. Por consequência, uma pergunta que muitas pessoas participando da marcha ouviram foi por quê? Por que cientistas pararam de fazer ciência por um dia e foram para as ruas? Não é sempre que as pessoas estão interessadas no que os cientistas estão fazendo (infelizmente), então precisamos agarrar esta oportunidade para explicar nossas razões. Este astroponto pretende clarificar pelo menos algumas delas, mas certamente não cobre todas. Sinta-se à vontade para compartilhar suas razões para participar da marcha, ou talvez não participar, nos comentários abaixo!

Uma celebração da ciência

Figura 2: cartaz sugere “sem fatos alternativos, apenas hipóteses alternativas” (Foto: Arthur Loureiro).

O principal objetivo da marcha pode ser descrito como celebrar a ciência. A ciência tem um grande papel nas nossas vidas, dos celulares nos nossos bolsos ao controle de qualidade do ar que respiramos. Algumas pessoas argumentam que a ciência devia ficar longe da política, de modo que agora não é um bom momento para protestar, considerando que há instabilidade política em muitos lugares. Contudo, como muito bem colocado neste astrobite que ainda não traduzimos, a ciência não pode ficar de fora da tomada de decisões.

Essa marcha foi apenas um pequeno passo para que isso se torne realidade, mas defender a ciência e mostrar ao mundo o que se entende por integridade científica, outro objetivo das marchas, é certamente um passo a frente. Essas marchas também encorajam o público a valorizar a ciência e vê-la com um bom investimento.

Falando em investimentos, as marchas também serviram como um apelo a muitos governos para que parem de reduzir o orçamento dedicado à ciência cada vez mais, como ilustrado no cartaz da Fig. 3. Esse é o caso no Brasil, por exemplo, onde os fundos federais foram reduzidos a quase metade do valor inicialmente proposto, dando aos cientistas pesadelos e incertezas sobre o futuro.

Figura 3: na marcha em Londres, cartaz questiona “WTF – onde está o financiamento?!” (Foto: Arthur Loureiro).

No Reino Unido, alguns carregavam bandeiras da União Europeia (UE), como a manifestante na Fig. 4, expressando seus medos de que a iminente saída do Reino Unido da UE, popularmente conhecida como Brexit, possa ter um impacto prejudicial na ciência. Milhões de euros em financiamento são dados a cientistas britânicos por programas de pesquisa da UE, sem contar o direito a acesso preferencial a grandes projetos de infraestrutura concedido a membros da UE. Até o próprio Doutor participou da marcha em Londres, evidenciando que esse foi de fato um evento importante na história da humanidade.

Figura 4: participante da marcha em Londres carrega bandeira da União Europeia. A torre do Big Ben, um dos cartões-postais de Londres, pode ser vista ao fundo. (Foto: Arthur Loureiro)

Acima de tudo, a Marcha pela Ciência buscou encorajar cientistas a comunicarem-se com a comunidade, a compartilhar a sua pesquisa e o potencial efeito que ela tem no cotidiano. Além disso, buscou mostrar para a comunidade que os cientistas estão abertos a responder suas perguntas, ouvir suas necessidades e considerá-las em futuros planos de pesquisa. A ciência não deve ser vista como algo que apenas acontece e tem influência dentro de laboratórios. Apenas quando as pessoas entenderem e aceitarem isso, a Marcha pela Ciência terá atingido seu objetivo.

Esse foi apenas o começo

É importante ter em mente que apenas uma marcha não vai resolver todos os nossos problemas. É na verdade apenas o começo. Durante esta semana, seguindo a Marcha, ocorre a Semana de Ação, com eventos que têm em sua maioria o objetivo de mostrar como cientistas podem comunicar-se melhor com a comunidade e cativá-la, para que juntos possam promover a ciência.

Os princípios da Marcha pela Ciência deveriam ser aplicados ao nosso dia-a-dia. Não fique em silêncio, faça com que a sua ciência seja ouvida, tenha orgulho dela. Mostre às pessoas por que a ciência importa, como a ciência pode afetar e mesmo salvar a vida delas. Contudo, seja também aberto aos outros e escute o que as pessoas têm a dizer. Ciência deveria ser contruída por todos, para todos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s